Dezoito presos produzem cerca de cinco mil peças em tricô e crochê, por coleção, para o mercado internacional
É difícil imaginar que atrás dos muros da Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, no Linhares, Zona Leste de Juiz de Fora, sejam criadas roupas exportadas para diversos países. As peças em tricô e crochê são produzidas por 18 homens do regime fechado, que, para cada três dias trabalhados, conseguem reduzir a pena em um dia. Eles são responsáveis pela criação de produtos com alto valor no mundo fashion e apreciados em desfiles internacionais, inclusive em Paris, na França, considerada uma das capitais mundiais da moda. A produção de cinco mil peças por coleção pertence à grife mineira Doisélles e funciona dentro do Pavilhão 1, sendo submetida a uma rígida inspeção de controle de qualidade, pois deve ser tipo exportação.
De Paris, a proprietária da marca, Raquell Guimarães, concedeu uma entrevista à Tribuna, por e-mail. Segundo ela, os produtos que saem das mãos dos presos têm muita qualidade. “O consumidor final não está interessado em saber se o processo de produção é em um mosteiro ou em um presídio. Ele quer saber se tem qualidade e design. Quando explicamos sobre o modo de produção, uma vez que todas as roupas saem da fábrica com o selo de responsabilidade social concedido pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), os consumidores ficam surpresos e verdadeiramente se alegram ao saber que este tipo de projeto existe.”
Conforme Raquell, a marca possui showroom em Tóquio, no Japão, que distribui peças para toda a Ásia, e outro em Paris, responsável por abastecer o mercado europeu. “Também exportamos para a América do Norte, onde as roupas são encontradas nos luxuosíssimos resorts da Califórnia e do Havaí”.
80% dos presos trabalham
Na Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, 80% dos 490 detentos estão inseridos em alguma oficina ou curso profissionalizante. Além de se sentirem mais respeitados, com mais dignidade e autoestima elevada, o trabalho atrás das grades representa um passo a mais em direção à liberdade. A diretora geral da unidade, Ândrea Valeria Andries, explica que todos os presos incorporados em alguma atividade contam com o benefício da remição. “Isso é importante para o apenado, que mantém a cabeça ocupada, além de ser preparado para o mercado de trabalho.” Além da fábrica de tricô e crochê, a cadeia oferece oportunidades na padaria interna, na fábrica de costura de bola, na confecção de meias, na produção de blocos e de bolsa de material reciclado, além de artesanato, faxina, barbearia, jardinagem e manutenção da horta interna.
A diretora afirma ainda que 90% dos encarcerados estudam na própria unidade, que oferece os ensinos fundamental e médio. “Há a possibilidade de implantação, em 2012, de um curso superior, mas aqueles que são aprovados no vestibular, a Justiça já autoriza o estudo fora da cadeia”, pontua Ândrea, completando que “com três dias de aula, o preso ganha menos um dia na pena. Quem estuda e trabalha consegue, então, a cada três dias, menos dois na condenação”.
Oportunidades deixam detentos mais disciplinados
Para a direção da unidade, a vantagem de manter o preso trabalhando está na disciplina. Isso pôde ser percebido quando a Tribuna visitou o estabelecimento prisional, numa tarde de quarta-feira. Depois que a reportagem cruzou os portões de acesso ao complexo, o silêncio chamou a atenção. O clima é bem diferente do observado em 2005, quando, durante seis dias de tensão, dois agentes penitenciários, 112 detentos e 14 familiares de presos ficaram confinados no Pavilhão 2, na mais longa rebelião da história de Juiz de Fora.
“Com o preso ocupado, cumprindo seus deveres e seus horários, a unidade torna-se mais ressocializada,” afirma a diretora geral da penitenciária, Ândrea Valeria Andries. Para participar das atividades profissionalizantes, homens e mulheres passam por uma triagem que verifica sua aptidão. “Após traçado o perfil, o detento é encaminhado para as frentes de trabalho oferecidas pela instituição. Todos são remunerados com um salário mínimo, recebendo três quartos do valor. O restante é depositado em poupança, para que o ex-detento tenha como começar uma vida nova,” informa Ândrea.
Novos caminhos
Cumprindo pena no regime semiaberto, C., 42 anos, foi contratado pela Doisélles. Ele entrou no projeto ainda na época em que estava no regime fechado e, como mostrou empenho e habilidade, hoje é funcionário da empresa. “Esta oportunidade foi muito importante na minha vida, pois resultou na minha ressocialização. Espero que a parceira entre penitenciária e marca siga em frente, para dar chances para outras pessoas”. C. foi preso por tráfico de drogas e tem que cumprir pena até 2020. “Com a remição, consigo o benefício do regime aberto em julho de 2012. Quero aproveitar isso para começar a trilhar novos caminhos”, diz o detento, pai de quatro filhos e responsável por sustentar sua família com o dinheiro que ganha com o tricô e o crochê.
Recicláveis se transformam em bolsas
O silêncio que chega a perturbar é quebrado quando a equipe da Tribuna aproxima-se do Pavilhão 3, destinado exclusivamente a mulheres. É lá que funciona outro projeto: a oficina de bolsas produzidas com material reciclado. Em meio ao barulho das máquinas, as detentas conversam e costuram a esperança de dias melhores. A. M., 44 anos, que está na penitenciária a cerca de dois, afirma que fazer parte desta atividade tem grande significado. “Estar dentro da cadeia, durante todo o dia, não é fácil. Então, sair da rotina com o serviço nos ajuda. Só de ficar fora da cela já é um alívio”, relata a mulher, que foi condenada por envolvimento com o tráfico de drogas. “A vida do crime não compensa. Já estive presa outras vezes. Quando a gente sai lá fora é muito difícil; as pessoas falam, mas ninguém ajuda.”
Quando deixar a prisão, A.M. pretende usar o que aprendeu para se recolocar no mercado. “Hoje costuro essas bolsas e é emocionante pensar que alguém lá fora pode estar usando uma que saiu das minhas mãos. Saber que, mesmo presa, estou fazendo algo de útil, é muito bom”.
O desejo de uma segunda chance para recomeçar é comum entre os que trabalham. A., 30, preso por assalto à mão armada, já cumpriu um ano e nove meses de prisão. Ele cuida dos jardins externos da penitenciária. “Estou me ressocializando, e isso é importante para mim, pois quero melhorar. Quero pagar pelo que fiz e, em maio, quando ganhar o benefício do semiaberto, desejo buscar um novo caminho. É bom diminuir a pena com meu trabalho. Ficar preso não é vida para ninguém”.
Cartas e telefone para matar saudade
Condenado por ter matado para roubar, C., de 43 anos, já cumpriu sete de cadeia só na Ariosvaldo Campos Pires. Ele integra o grupo de prisioneiros que trabalha na confecção de meias. Nascido em Barroso, a 136 quilômetros de Juiz de Fora, ele é casado e pai de dois filhos, mas, devido à distância, nunca recebe visitas. O contato com a família é por meio do telefone e de cartas. Por isso, trabalhar para obter a remição de pena é seu maior objetivo atrás das grades. “Quero sair o mais rápido. Sei que errei e estou pagando por isso.
Durante todo meu período de prisão, tive muito tempo para pensar e colocar a cabeça no lugar. Quem é livre deve dar muita importância para sua liberdade e evitar entrar por caminhos errados, porque depois que passamos por aquele portão vermelho (entrada para o pavilhão onde está encarcerado) é muito difícil sair.” Quanto à produção de meias, ele afirma servir para arejar a mente. “Quando estou trabalhando, me sinto aliviado e fico fora de bagunça e confusão. Com a remição que já consegui, minha data para deixar a cadeia é 2014. Para o meu futuro, espero uma segunda chance, porque fui preso, não por falta de oportunidades lá do lado de fora, mas por falta de juízo. Esse erro não vou cometer mais.”
As mãos que aprenderam a fazer massas para pães, tortas e bolos já manusearam uma arma de fogo. A., de 29 anos, integrante do curso de profissionalização de padeiro, foi condenado por tentativa de homicídio. O plano para quando sair da prisão é procurar um emprego, agora com o certificado de padeiro nas mãos. “Quero pensar no futuro, viver uma vida diferente. Passei muito tempo na prisão. Já trabalhei na fábrica de bola, na padaria e me formei na oitava série. Espero que tudo isso tenha importância durante a minha liberdade”.
Fonte: Tribuna de Minas